Dom, 26 de Julho
Ilhabela

Ancestralidade, mitologia e homenagens: conheça a história por trás dos sambas-enredos de 2026 das escolas de samba de Ilhabela

O desfile das escolas de samba de Ilhabela será neste sábado (7) e as agremiações já estão esquentando seus tamborins e atabaques. No coração de cada integrante, o samba-e

06 fev 2026 - 07h36 Sebastião Neto   atualizado em 26/02/2026 às 12h27
Ancestralidade, mitologia e homenagens: conheça a história por trás dos sambas-enredos de 2026 das escolas de samba de Ilhabela Ancestralidade-mitologia-e-homenagens-conheca-a-historia-por-tras-dos-sambas-enredos-de-2026-das-escolas-de-samba-de-Ilhabela-2_Easy-Resize.com_

O desfile das escolas de samba de Ilhabela será neste sábado (7) e as agremiações já estão esquentando seus tamborins e atabaques. No coração de cada integrante, o samba-enredo pulsa pronto para ser recitado na Rua Dr. Carvalho, na Passarela do Samba. As letras de 2026 reverenciam moradores ilustres, mitologias, saberes e culturas de povos que ajudaram a construir o Brasil e até um dos sonhos mais antigos da humanidade: voar.


Confira a sinopse do samba-enredo de cada escola e a história representada pelos seus versos e refrãos.



Garrafão


A Unidos do Garrafão faz uma viagem pela mitologia iorubá (grupo étnico da África Ocidental) para exaltar o orixá Oxóssi, senhor da caça, das matas, da fartura e do conhecimento. Por meio do itã ou ítan, os contos sagrados que descrevem mitos e lendas dos orixás, vividos na cidade sagrada do povo yorubá, o enredo narra a façanha do jovem caçador que, com uma única flecha, restaura a ordem e se torna herói de seu povo.


Guiado pelos ensinamentos de Obatalá, Exu, Ossain, Ogum, Oxum, Iemanjá e Orunmilá, Oxóssi atravessa provações, cai no esquecimento e renasce eterno. Na avenida, o terreiro se abre, o axé floresce e o garrafão celebra a ancestralidade, a memória e a força do caçador que nunca erra.



Samba-enredo


Firma o ponto, batuqueiro! Vem saravá lebará, ô... Ê mojubá!


Meu garrafão é macumbeiro,


Oxóssi vai baixar nesse terreiro! (bis)


Foi há muito tempo, em ilê ifé que aconteceu.


Na festa dos inhames,


Onde o céu escureceu,


Um pássaro assombroso, de grandes asas,


Lá no castelo pousou...


E o povo horrorizado...


E assim a saga começou.


Okê, okê... Okê!


Arolé kí o!


Sua flecha é certeira,


Só eu sei onde caiu. (bis)


Obatalá ensinou o segredo da caça


Osain fez feitiço com mel e cachaça


Ora yê yê ô!


Oxum foi amor com doçura,


Logum edé nasceu com bravura e ternura.


Foi Ogum quem ensinou a lutar e a ser leal.


Não mate a ejó de Xangô,


Pois desperta o mal!


Nas águas de mãe Iemanjá,


O ebó é de orunmilá,


E quando o vento soprar...


Nosso ilê vai cantar


Compositores: Roberto Xaxa, Marcelo Dubau, Quebinho, Nico, Bebê, Tutula



Leões do ITA


A Acadêmicos Leões do Ita apresenta o enredo “Sob a Luz do Destino – Leões do Ita Canta DonDito, uma homenagem em vida a um dos maiores baluartes da cultura popular e do samba do Litoral Norte de São Paulo.


Filho biológico de Helena, DonDito é acolhido e criado por dona Laureci, mulher branca, mãe de santo, e que lhe oferece não apenas um lar, mas raízes profundas no axé, no respeito e na espiritualidade.


Criado no bairro do Ita, entre ruas de chão batido e brincadeiras simples, DonDito constrói sua infância em meio ao som dos terreiros, às bênçãos da umbanda e do candomblé, onde se torna ogã, mensageiro dos orixás, aprendendo desde cedo que o tambor também educa, protege e guia destinos.


Cantor, compositor e referência, DonDito passa a integrar e contribuir com as


mais tradicionais agremiações de Ilhabela e São Sebastião, consolidando-se


como o Pai do Samba do Litoral Norte.



Samba-enredo


Quem tem que se segurar, segura


Que o Ita vai balançar a rua


Alô DonDito a ilha veio trazer (refrão)


Flores em vida pra você


Forjado nas garras do leão, história de luta e superação, o negro menino viveu adoção


Recebe o afeto da sua mãe branca…


Cercado de amor… a aliança de família consistiu, és o retrato do Brasil, Benedito que o destino construiu


Pé descalço no chão, sem camisa


Bola, pipa, pião na ladeira


Um mergulho no mar, mais nada pra fazer (refrão)


A infância que hoje em dia não se vê


Bênção de axé vem pra sustentar


O espiritual na gira


Ogã mensageiro de Xangô... Kaô… Kaô


Mareia seus olhos de amor


O samba na alma afasta a dor


Os filhos…


Sempre honrando a cartilha


A missão de ser sambista que o pai ensinou


Seu nome é poesia na avenida


Homenagem merecida ao verdadeiro leão


Que jamais trairá seu pavilhão


Compositor: Maestro Jota



Padre Anchieta


“Ah, quem me dera voar!”. Quem neste mundo nunca teve este sonho? Imaginar-se como belos seres livres, alcançar os astros, integrar-se com o universo. Andar, correr, nadar, não basta. O homem quer ser completo e livre e, para isso, ele sonha.


A Escola de Samba Unidos de Padre Anchieta traz para a passarela seus passageiros-passistas vestindo a tradição do sonho de voar.


“O Ímpeto de Voar” trata do sonho, tão remoto quanto o próprio homem, de voar livre pelos céus. Mitos, lendas que surgem da observação dos pássaros se transformam em inventos, conquistas tecnológicas, em direção ao sonho. Hoje, esse sonho já é possível, as incríveis máquinas voadoras permitem o deslocamento do homem ao espaço. A lua é um local de pouso, mas como ainda não somos pássaros, o sonho continua.


A escola perpassa a magia do voar desde a mitologia grega até os grandes inventores, como Leonardo Da Vinci e o brasileiro Santos Dumont.



Samba-enredo


O ímpeto de voar


Ah, quem me dera voar!


Quem sabe sonhar no azul mais bonito


Livre pelos céus é possível conquistar


Tudo que encontra o infinito


Abra as cortinas do tempo


Voa o pensamento pra divina criação


Ao flutuar sobre a terra e o mar


O dom de encontrar a direção


Me leva, feito imagem e semelhança


Mitologia que resgata o passado


E um dia cruzamos o sol e a lua com seres alados


Com asas de cera, buscar liberdade


Vi Pégaso, enfim... A imortalidade


Voar num tapete, riscar o céu


E ver a magia flutuar ao léu


Mais que um privilégio...


Viajar nas asas do desconhecido


A arte fervilhando a imaginação


Desejos, profecias e caminhos


Tocar as nuvens, ser passarinho


Pra renascer e voltar pro velho ninho


Na mais fascinante aventura


Viaja atrás do conhecimento


Volte no tempo, pro mundo entender


Se hoje o céu tem pássaros de aço


O homem e o espaço


A verdade nas alturas do saber


Eu quero voar, buscar a vitória


Cruzar o limite, alcançar o infinito


Sou Padre Anchieta nas asas da imaginação


Pro meu samba pousar no seu coração


Composição: Wander da Anchieta e Léo do Cavaco



Mocidade


Houve um tempo passado, muito triste e lamentado, que hoje a história registra na luta das pessoas negras. Diante da resistência dos índios à escravidão, os portugueses e paulistas recorreram ao servilismo do negro africano. Desde 1531, há notícia da escravidão negra no Brasil.


Durante a invasão holandesa, em Pernambuco, o número de escravos fugidos no interior de Alagoas foi enorme. Formaram-se então os quilombos, refúgios de negros fugitivos que lutavam a preço de sangue pelo direito de liberdade. Desses grupos, o de Palmares foi o que mais tempo durou, de 1630 a 1695, e o que ocupou maior área territorial, cerca de quatrocentos quilômetros quadrados dos atuais estados de Pernambuco e Alagoas.


Entre fugas e batalhas, o paraíso de Palmares foi criado para ser o símbolo da resistência dos negros escravizados. Chega de açoite, chega de lamento, a bravura e a resistência voam com a esperança em busca da liberdade. Vidas sacrificadas, sangue derramado, nada foi em vão.


E é com essa força aguerrida que a Mocidade vai pisar na avenida para mostrar sua garra e apresentar essa justa homenagem aos negros que hoje conquistaram seu espaço.



Samba-enredo


Vamos exaltar a luta dos irmãos que conquistaram a liberdade


E nosso canto em louvação


Traz a força de Palmares


Pro Quilombo Mocidade


Lágrimas ao mar, sofrimento e dor na travessia


Tumbeiro onde a morte se anuncia


Traz a força africana


Pras lavouras das capitanias


Mas o negro não se intimidou


Com sua coragem resistiu ao cativeiro


Lutou contra o domínio europeu


Deixando exemplo para o povo brasileiro


Hoje tem maracatu, tem congada, tem lundu / ao som da alfaia / celebrar nossa raiz / trazendo no peito / sou negro, eu sou mais feliz!


Mas gangazumba perdeu o seu reinado


Assassinado, tido como traidor


Rejeitando a aliança


Com o opressor


Zumbi, então, se torna líder aclamado


Da resistência contra o velho bandeirante


Que em sua sanha


Destruía o sertão


Fica o legado


Dos nossos leões guerreiros


Que deram sangue


Por sua libertação


Composição: Junão Lima, Tuta Do Irapuru, Odimar Do Banjo, Leandrinho Lv, Ramiro Perré, Nei Melodia



Água na Boca


A escola traz para 2026 o batuque da umbigada, dança de expressão simbólica de saudação advinda da costa do continente africano, especialmente de Moçambique e das comunidades de linguagem Bantu. Dentre as danças circulares desse povo, destaca-se a “Caiumba” que reúne homens e mulheres em roda e na qual seus praticantes batem seus umbigos um no outro como forma de gratidão à vida.


No Brasil, escravizados da região foram levados para plantações de cana-de-açúcar nas cidades do interior paulista, um trabalho árduo e sacrificado. Um dos únicos consolos desses trabalhadores era, no cair da noite, dançar Caiumba, que, com o tempo, passou a exigir um ritmo mais concentrado e ensejou a criação do “tambu”, um tipo de tambor de madeira revestido com pele animal. A pessoa responsável pelo instrumento passou a ser chamada de “batuqueiro”.


A dança se espalha para as comunidades quilombolas e ao ritmo do “tambu” passa a incorporar poesias, cantos e lamentos do tempo de cativeiro, escravidão e dor, preservando a memória dos seus ancestrais.


Na umbigada, o culto aos orixás também se fez presente e se entrelaça com a devoção dos santos católicos em um sincretismo religioso no qual o sagrado se funde em diferentes formas, mas em uma única essência. É dessa forma que a Água na Boca reverencia a ancestralidade do povo preto que foi escravizado, trazendo alegria e alento no ritmo do batuque e da umbigada, que também viraram samba de roda, samba de terreiro e samba de enredo.



Samba-enredo


Deu água na boca, o samba raiz


Para povo feliz firmar batucada


A pele arrepia e o corpo de mola


Faz escola no tambor da umbigada


Da costa africana, a tradição


É batuque moçambique,


Bantu inspiração


Caiumba pra gira fazer kizumba


Umbigada energia, o corpo em comunhão


Memória forjada pelo marfim, lembrança divina dos ancestrais


Onde repousa a natureza


E o sol da savana vibra pela paz


A África se veste em devoção


Nasce a herança de uma geração


Bate o tambu,


Clareia a escuridão


Pra girar na umbigada


E clamar libertação


A fumaça do cachimbo


Preto velho já soprava


É reza livre que ressoa na senzala


Do cativeiro à luz da resistência


O povo dançou com a fé no olhar


No interior, lenço a colorir


A força que insiste em persistir


Veio o batuque, o lamento e a flor


Verso que apaga a dor


Nas fogueiras acesas a união


Ponto de umbanda,


Canto para os santos


A fé moldada na mesma oração


Samba, onde o samba fez escola


Do terreiro à avenida, a consagração


Composição: Rodrigo Shumacker

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