Grupos que atravessam estados, ônibus lotados de sanfona imaginária e histórias que começam muito antes de chegar à balsa
É assim que o Festival Forró na Ilha se revela para além da programação oficial: como um ponto de encontro de pessoas que vêm de longe para viver, juntas, uma experiência que mistura música, natureza e pertencimento. Entre os dias 30 de abril e 2 de maio de 2026, Ilhabela volta a pulsar no compasso do triângulo, da zabumba e da sanfona com a 13ª edição do Festival. Consolidado como um dos principais encontros de forró pé de serra do Sudeste, o evento reúne público estimado de até 1.500 pessoas por dia e deve movimentar cerca de R$ 1,2 milhão na economia local, impactando diretamente o turismo, a rede hoteleira, a gastronomia e a economia criativa. Mas, para entender a dimensão do festival, é preciso olhar para quem chega.
De São Paulo, a empreendedora e produtora de eventos Priscila Silva, 37 anos, já transformou o evento em tradição. Fundadora da Forró Trip SP, ela organiza caravanas que cruzam a estrada com destino certo: Ilhabela.
“Já acompanho o festival desde 2016 e, com a Forró Trip, desde 2021. Ele virou parada obrigatória no nosso calendário. Todo ano a gente volta com mais vontade e trazendo mais gente”, conta.
Em 2026, o grupo chega a cerca de 40 pessoas, número que carrega mais do que logística, mas traduz o crescimento de uma comunidade que se forma a partir da dança. “A expectativa só cresce. Não é só sobre o festival, é sobre as conexões, as amizades e as memórias que a gente constrói juntos.”
Sobre a iniciativa mover tanta gente, ela garante que é a soma de fatores, algo que não se explica facilmente, mas se sente. “É a combinação perfeita: música de qualidade, natureza incrível e uma energia surreal das pessoas. Ilhabela já é um paraíso, e com o forró vira uma experiência inesquecível.”
De outra rota, saindo do Sul de Minas Gerais, vem Aline Almeida, 28 anos, gerente de marketing e professora voluntária do projeto Forró de Segunda, em Itajubá. O que começou com um grupo de 10 pessoas, em 2023, hoje se transformou em uma caravana de mais de 30. “Ver esse número crescer com parceiros e alunos tem um carinho especial. A gente sabe que vai voltar com o coração quentinho, porque não é só um festival, é um movimento cultural muito bonito.” Para ela, o evento também ganhou um significado pessoal. “O festival costuma cair perto do meu aniversário, então virou um ritual. Comemorar mais um ano dançando forró à beira-mar, cercada de amigos… não tem celebração melhor.”
Essas trajetórias ajudam a explicar como o Festival Forró na Ilha deixou de ser apenas um evento musical para se tornar uma plataforma cultural, social e econômica. Ao longo dos anos, o encontro passou a ocupar um papel estratégico na valorização da cultura popular brasileira, reunindo diferentes públicos em uma experiência que conecta tradição, formação e impacto social.
O idealizador do festival, Rodrigo Ribeiro Rehder, vê nesse movimento a confirmação de um caminho construído coletivamente. “Ilhabela sempre teve uma tradição forte de forró. Quando comecei a ver grandes festivais pelo Brasil, surgiu a vontade de colocar a cidade nesse circuito. Hoje, ver gente chegando de tantos lugares, em grupos, com histórias tão bonitas, mostra que o festival ganhou vida própria.”
A edição de 2026 reúne 13 bandas e trios, além de quatro DJs especializados em vinil, reforçando a essência do forró pé de serra. Entre as atrações estão Diana do Sertão, Nando do Acordeon, Neide Nazaré, Luarada Brasileira, Peixelétrico, Forró di Casa, Coisa de Zé, Trio Sabiá, Thais Nogueira, Marimelo, Trio Praiano, Alvorada, Sudestino e Duka Santos e os Meninos do Groove.
A programação vai além dos palcos: inclui oficinas de dança, pífano e cordel, cortejo cultural com o grupo Pife na Praia, roda de conversa sobre sustentabilidade, capoeira e atividades infantis, como oficinas de circo. A gastronomia caiçara e a feira criativa ampliam a experiência e fortalecem o diálogo entre cultura e território.
No campo social, o festival também se destaca pela geração de renda e inclusão. Um dos exemplos é a feira de afroempreendedorismo liderada por Rosângela de Souza, à frente do Projeto Espaço das Pretas. A iniciativa reúne mulheres negras e outros grupos historicamente invisibilizados, criando oportunidades reais de comercialização, visibilidade e autonomia financeira.
Mais do que números, o impacto aparece nas histórias: pessoas que conseguem investir em seus negócios, pagar contas e fortalecer suas trajetórias a partir do espaço conquistado no evento.
É nesse encontro entre quem chega e quem constrói o festival que o Forró na Ilha encontra sua força. Em meio à travessia, à música e às trocas, Ilhabela se transforma em um território onde o forró não apenas resiste, ele conecta, expande e, sobretudo, cria caminhos que fazem cada viagem valer a pena.
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