Nas unidades de Caraguatatuba, o material tem sido flagrado sendo manipulado diretamente de sacos plásticos abertos, contrariando as normas de segurança do próprio fabricante.
Apesar de desembolsar mensalmente a vultosa quantia de R$ 9.924.084,66 para a gestão da saúde, a realidade nas pontas do atendimento revela um cenário de precariedade técnica alarmante em Caraguatatuba. Uma denúncia grave, acompanhada de registros fotográficos, publicada na página Boca no Trombone Litoral, na rede social Facebook, aponta que as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Unidades Básicas de Saúde (UBSs) sofrem com o desabastecimento de compressas de gaze estéreis, obrigando profissionais a recorrerem ao improviso com rolos industriais não estéreis em feridas abertas.
O Perigo do Improviso
"Rolo para Gesso, Gaze para Ferida" A denúncia expõe uma falha técnica primária: o uso de gaze em rolo (material destinado prioritariamente à absorção e proteção em imobilizações) em substituição às compressas estéreis individuais. A diferença, negligenciada pela gestão, é vital para a segurança do paciente: o rolo é ideal para imobilizações (como proteção sob talas de gesso), enquanto a compressa estéril é a única adequada para limpeza e curativos invasivos.
Imagens obtidas mostram o uso do "Rolo Tipo Queijo", da marca Fortclean, acondicionado de forma improvisada em sacos plásticos rasgados e exposto ao ambiente. Do ponto de vista sanitário, a prática é inaceitável. Segundo especialistas, esse material pode soltar fibras ("pelinhos") que grudam no leito da ferida, dificultando a cicatrização e elevando drasticamente o risco de infecções hospitalares graves.
Bula proíbe uso com embalagem violada
A análise técnica da instrução de uso do produto confirma o risco. O fabricante é categórico: o produto NÃO É ESTÉRIL. Além disso, a bula determina explicitamente: "Não utilize o produto caso a embalagem esteja danificada, rasgada, molhada ou com sinais de violação". Nas unidades de Caraguatatuba, o material tem sido flagrado sendo manipulado diretamente de sacos plásticos abertos, contrariando as normas de segurança do próprio fabricante.
Gestão de R$ 119 milhões sob suspeita
A responsabilidade pelo fornecimento de insumos é da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Bernardo do Campo, conforme o Contrato de Gestão nº 01/2026. Pelo acordo assinado pelo prefeito Mateus Veneziani da Silva e pelo secretário de saúde Sérgio Arnaldo Braz, a Organização Social (OS) tem a obrigação de assegurar o "provimento dos insumos (materiais) e medicamentos necessários à garantia do pleno funcionamento" das unidades.
O contrato prevê que a execução deve garantir qualidade, eficácia e segurança. O uso de materiais não estéreis em desacordo com as normas técnicas configura, em tese, negligência ou erro na execução, sendo a OS, integralmente responsável por qualquer dano causado aos usuários.
O descumprimento das obrigações contratuais pode acarretar penalidades severas, que variam de advertências e multas de 5% sobre o valor do contrato até a desqualificação da entidade como Organização Social. Até o momento, a Secretaria Municipal de Saúde não explicou os motivos do desabastecimento de gazes estéreis na rede.