Imagem mostra áreas desmatadas sendo preenchidas com entulho para iniciar 'pavimentação' de ruas e acesso em Camburi.
(Imagem: Tiago Queiroz / Estadão)
A vendedora Solange (nome fictício) relatou ter recebido uma proposta para comprar um terreno em uma área irregular no bairro Piavú, em São Sebastião. Segundo ela, a oferta foi recusada.
“Eles queriam R$ 40 mil num terreno lá no fundão (do bairro). Mas era contrato de gaveta (cujo registro fica no nome de outra pessoa). Eu não quis. De uma hora pra outra, a gente pode perder, né? O que existe de terreno (à venda) lá é uma verdadeira máfia”, relata ela.
Durante a conversa com a reportagem do Jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), um carro passou duas vezes pela rua em poucos minutos, o que deixou a moradora visivelmente apreensiva.
Questionada sobre o motivo do receio, preferiu não comentar.
“A senhora está com medo?”, pergunto. Ela apenas acena. “Do quê?” Novo silêncio.
Após o veículo se afastar, ela pediu para não ter a identidade revelada.
“Tomara que não seja o meu último dia aqui na Terra”, diz.
Desmatamento e “grilagem de luxo”
Conforme relato do Estadão, a região onde ocorreram os relatos fica próxima à Praia de Camburi, área conhecida por atrair turistas e investidores imobiliários.
Apesar disso, o território também concentra importantes remanescentes de Mata Atlântica no Estado. Investigações e denúncias apontam para o avanço de invasões e do chamado mercado irregular de terrenos, que inclui a chamada “grilagem de luxo”, quando áreas são desmatadas e revendidas para construção de casas de veraneio.
“O desmatamento ocorre de forma coordenada e planejada, quase sempre com o mesmo modo de agir, em ritmo mais rápido que os das próprias construções, nas mesmas épocas do ano”, diz a advogada Fernanda Carbonelli, diretora-executiva do Instituto Conservação Costeira (ICC).
Áreas estão congeladas pela Justiça
As vilas Piavú, Barreira, Barreirinha e Baleia Verde estão classificadas como “núcleos congelados” desde 2019, após ações civis públicas do Ministério Público.
A medida impede novas construções e tenta conter a expansão da ocupação irregular. Mesmo assim, moradores e ambientalistas afirmam que continuam surgindo novas áreas desmatadas e terrenos à venda.
Outra área congelada é a Vila Sahy, atingida pela tragédia climática de fevereiro de 2023, quando chuvas intensas provocaram deslizamentos e deixaram dezenas de mortos.

Denúncias e investigações
A Secretaria da Segurança Pública informou que o 2º Distrito Policial de São Sebastião investiga a atuação de grupos envolvidos em empreendimentos clandestinos.
Segundo o órgão, a polícia apura a existência de organizações que estariam estruturando loteamentos irregulares em diferentes regiões do município.
Já a prefeitura afirmou que atua em conjunto com forças policiais quando há indícios de parcelamento ilegal do solo. O município também declarou manter ações de fiscalização contra desmatamento e ocupações irregulares.
De acordo com a administração municipal, foram realizadas 40 operações no ano passado, resultando em 239 desmontes de estruturas e 89 embargos.
A Secretaria de Meio Ambiente do Estado informou que realizou 1.386 ações de fiscalização no município entre 2023 e o ano passado.
Pressão imobiliária e falta de moradia
Especialistas apontam que a expansão irregular na região está ligada a fatores históricos e econômicos.
A valorização imobiliária do litoral norte, intensificada após melhorias no acesso rodoviário, aumentou a procura por terrenos.
Ao mesmo tempo, trabalhadores atraídos pelo crescimento do turismo e do setor de serviços encontram poucas alternativas de moradia regularizada.
“A valorização imobiliária se intensificou, sobretudo quando São Sebastião passou a substituir o Guarujá como destino preferencial de investimentos em segundas residências”, afirma o geógrafo Davis Gruber Sansolo, da Unesp.
“Esse processo aprofundou a especulação fundiária e empurrou a população de menor renda para áreas ambientalmente frágeis,” Finaliza Davis.
Ambientalistas registram aumento de denúncias
O Instituto Conservação Costeira informou ter recebido 79 denúncias de crimes ambientais em 2025 e outras 22 apenas nos dois primeiros meses deste ano.
Entre as irregularidades relatadas estão desmatamento, abertura ilegal de ruas, parcelamento clandestino de terrenos, lançamento de esgoto e extração irregular de areia.
Para ambientalistas, a combinação entre ocupação desordenada e eventos climáticos extremos aumenta o risco de novas tragédias na região.
“É preciso que o congelamento dos núcleos saia do papel e seja colocado em prática para que as construções não avancem mais”, afirma Fernanda Carbonelli
Com informações de reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão).